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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Esperanças da imunoterapia na luta contra o câncer

O imunologista James Allison durante entrevista coletiva após saber que recebeu o Prêmio Nobel de Medicina, em Nova York, em 1º de outubro de 2018.
Tipos de câncer que causam mais mortes no mundo.

A imunoterapia poderá substituir um dia a quimioterapia na luta contra o câncer? Qualificada por alguns de revolução e coroada no dia 1º de outubro com o Prêmio Nobel de Medicina, esta técnica consiste em reforçar as defesas do corpo ante a doença.

O prêmio foi atribuído a dois imunologistas, o americano James P. Allison e o japonês Tasuku Honjo, por terem descoberto como provocar uma resposta do organismo contra o câncer, neutralizando algumas moléculas que lhe impedem de se defender.

A imunoterapia "está em pleno auge, é talvez a via mais importante descoberta recentemente para tratar o câncer", afirma à AFP o pesquisador francês Pierre Goldstein.

"É uma revolução equivalente à chegada dos antibióticos", afirma Eric Vivier, pesquisador e diretor científico da Innate Pharma, empresa francesa de biotecnologia especializada na pesquisa deste tratamento.

Esta técnica encontra-se em estágio inicial e não funciona com todos os pacientes. Mas as expectativas são altas, de modo que a indústria farmacêutica está investindo maciçamente.

Até julho passado, havia 800 testes clínicos em andamento no mundo e mais de 30 medicamentos em desenvolvimento, segundo um cálculo da American Cancer Society.

Para defender-se contra o que é estranho em nosso organismo, o corpo se apoia em glóbulos brancos chamados linfócitos T.

Mas estas células têm em sua superfície moléculas chamadas "inibidoras", que podem frear a eficácia de sua ação se a pessoa é afetada por um câncer.

A imunoterapia consiste em neutralizar estas moléculas inibidoras (duas delas chamadas CTLA-4 e PD-1), utilizando proteínas chamadas anticorpos. O objetivo: levantar estes freios e permitir aos linfócitos defender o organismo contra o câncer.

A CTLA-4 foi encontrada por Pierre Goldstein e sua equipe em 1987. "Mas foram os laureados do Nobel que desenvolveram os anticorpos correspondentes", explica Vivier.

"Estes medicamentos transformaram as perspectivas de muitos pacientes que não tinham nenhuma outra opção", aponta o professor Charles Swanton, da associação britânica Cancer Research UK.

- Excesso de entusiasmo? -

Em 2011, a FDA e a EMA, as autoridades sanitárias americana e europeia, "aprovaram a administração de medicamentos de anticorpos para o melanoma metastático, o câncer de pulmão avançado, o câncer de rim metastático e para cânceres de otorrinolaringologia e da bexiga", lista a professora Laurence Zivogel, imuno-oncóloga do Instituto Gustave Roussy, perto de Paris, primeiro centro de luta contra o câncer na Europa.

Mas apesar das esperanças que geram, estes tratamentos "não são completamente inofensivos", segundo Goldstein.

"As células do sistema imunológico que se ativam podem causar certas manifestações autoimunes, cutâneas ou contra alguns órgãos endócrinos", acrescenta, detalhando que estes efeitos indesejáveis podem ser controlados.

Além do câncer, a imunoterapia "provocou uma revolução do fato de considerar-se a utilização do sistema imunológico para combater outras doenças", segundo o professor Dan Davis, imunologista da Universidade de Manchester (Inglaterra).

"Acredito que por enquanto só vemos a ponta do iceberg e que há muitos outros medicamentos no horizonte", aponta.

Mas esta revolução às vezes é interpretada com um excesso de entusiasmo pelos pacientes. Nos Estados Unidos, alguns doentes pedem a seus médicos para serem tratados com imunoterapia em vez de quimioterapia, radioterapia ou cirurgia, inclusive quando os tratamentos convencionais são eficazes.

"O que me preocupa é que este entusiasmo nos leve a ignorar outros âmbitos promissores na medicina de precisão, na radioterapia ou na cirurgia", afirma à AFP o diretor médico da American Cancer Society, Otis Brawley.

O professor Allison, um dos premiados com o Nobel, disse no dia 1º de outubro em Nova York que a imunoterapia não "substituirá o resto". "Fará parte da terapia proposta a quase todos os pacientes dentro de cinco anos".

Destacou que o financiamento não deveria versar apenas sobre o desenvolvimento de medicamentos. "É preciso continuar financiando a pesquisa fundamental, é aí onde surgem as ideias".

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