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terça-feira, 12 de junho de 2018

Após acordo com FMI, Macri enfrenta desafio social na Argentina

Manifestante protesta em Buenos Aires em 16 de maio de 2016 contra o governo de Mauricio Macri e o FMI.

Ao fechar um acordo com Fundo Monetário Internacional (FMI), a Argentina escolheu um caminho doloroso e nada popular para resolver a equação econômica e desarmar uma espécie de bomba-relógio social a 16 meses das eleições presidenciais.

Ainda antes de ter assinado o acordo que prevê um programa de austeridade para reduzir o déficit fiscal, o governo já enfrentava uma pressão crescente dos sindicatos, com manifestações constantes e uma ameaça de greve geral.

O Fundo deu à Argentina um crédito "stand by" de 50 bilhões de dólares para "evitar a crise", disse o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne.

A Argentina assumiu o compromisso de um ajuste escalonado das contas públicas e ainda deve reduzir sua meta de déficit fiscal de 3,2% para 2,7% do PIB em 2018. O objetivo é eventualmente chegar a um superávit fiscal de 0,5% do PIB em 2021.

O plano prevê o corte dos salários que já perderam poder aquisitivo pela inflação de mais de 20% ao ano e a desvalorização da moeda - o que significará maior descontentamento.

- Alto custo social -

"Temos que dizer 'chega!', porque isso é mais ajuste para o povo argentino. Estão hipotecando o futuro. O acordo com o FMI é uma blindagem para garantir a especulação financeira, isso é, menos educação, menos saúde. Começamos a pagar agora com um custo social muito alto", afirmou Roberto Baradel, dirigente do sindicato de professores.

Macri assumiu em dezembro de 2015 com a promessa de vencer com facilidade a inflação, mas após dois anos e meio está longe de alcançá-lo.

Em 2017, a alta do custo de vida foi de 25%, e a inflação somou quase 10% nos primeiros quatro meses deste ano, impulsionado pela depreciação do peso.

"Hoje, o maior fator de crescimento da pobreza é o efeito inflacionário, é o que mais corrói a renda. Se o programa (de acordo com o FMI) tiver um efeito de retração sobre o crescimento, isso vai se agravar", afirmou à AFP o cientista político Gabriel Puricelli.

Dujovne reconheceu que freará o crescimento da economia e que a inflação será mais alta que o previsto.

A meta de 15% de inflação para 2018 acabou sendo apenas um teto para as negociações salariais, enquanto os consultores econômicos preveem que o custo de vida subirá 27% neste ano.

- Austeridade -

Pouco antes de anunciar o acordo com o FMI, Dujovne conseguiu adiar em alguns dias uma convocação iminente a uma greve geral, oferecendo um paliativo elevando em 5% o teto para a discussão salarial. A decisão será tomada nessa semana.

"Os dissídios (negociações salariais) acordados já não estão em linha com a inflação. O tema é que vai passar com o dólar e os preços. O nível de receitas dos assalariados vai despencar", afirmou Julio Burdman, doutor em Ciências Políticas da privada Universidade Di Tella.

O instituto econômico Capital Economics considera que o acordo de Argentina-FMI "vai ajudar a restaurar a confiança dos investidores", mas alerta que "o ambicioso plano de ajuste será difícil de por em prática". "Os Orçamentos de 2019 e 2020 deverão ser aprovados pelo Congresso, onde a coalizão do governo tem apenas 40% dos assentos".

"Ainda não se sabe como será o programa de austeridade, mas provavelmente incluirá cortes salariais na administração pública", destaca a Capital Economics, que teme que "o acordo seja posto em questão se um governo populista chegar ao poder" nas presidenciais de 2019.

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