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quarta-feira, 14 de março de 2018

Dia Internacional da Mulher: "penalidade materna" aumenta as desigualdades de gênero no mercado de trabalho

A maternidade é, ainda hoje, um dos fatores que mais acentuam a desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Um estudo realizado pela Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV EPGE), com dados do Ministério do Trabalho, mostra que 50% das mulheres analisadas estavam fora do mercado apenas 12 meses após terem seus filhos.

Além das chances de demissão dobrarem no retorno da licença-maternidade, a renda dessas mães também é afetada: o salário de uma mulher cai 7% para cada filho que nasce, enquanto o dos homens sobe 10%. A chamada “penalidade materna” é apenas um exemplo de como a tarefa de cuidar da casa e dos filhos ainda não é vista como algo a ser compartilhado.

Dividindo as responsabilidades com os homens

Para Regina Madalozzo, que é coordenadora do Mestrado Profissional em Economia do Insper e do Núcleo de Estudos de Gênero do Centro de Estudos em Negócios, as políticas de apoio à maternidade, como flexibilidade de horário, só são positivas quando valem para ambos os sexos. “Dessa forma, você passa a questão da responsabilidade familiar, que pesa muito para as mulheres, também para os homens”, explica ela.

Uma política que tem se destacado por reduzir a desigualdade de gênero no mercado de trabalho é a licença-parental. Esse direito torna unissex o tempo de afastamento após o nascimento de um bebê, ou seja, os pais podem decidir quanto tempo cada um ficará em casa com a criança. A licença-parental já existe em 52 países pelo mundo, incluindo a Suécia, onde foi adotada em 1974.

“Quando você tem homens e mulheres compartilhando dessa licença, começa a mostrar que é natural as pessoas terem filhos. Que o fato de um homem ter filho ou uma mulher ter filho influencia da mesma forma no mercado de trabalho”, explica Regina Madalozzo, lembrando que, por esse caminho, as mulheres podem retornar antes ao trabalho e continuar investindo em suas carreiras.

A especialista em Finanças Femininas do portal Tempo de Mulher, Carolina Sandler, fala da necessidade de romper os estereótipos de gênero. “Muita gente tem essa visão de que a mulher só quer ter filho, só quer se dedicar ao filho, não quer trabalhar. Mas espera aí. Alguém perguntou pra essa mulher o que ela quer? Alguém perguntou de que forma ela consegue organizar isso?”, enfatiza.

A realidade brasileira

Apesar de não haver licença-parental no Brasil, algumas empresas estão se destacando com a adoção de políticas novas de incentivo à igualdade de gênero. É o caso da PwC Brasil, que permite que seus funcionários homens tirem licença-paternidade de oito semanas – recomendando que 4 sejam tiradas após o nascimento do bebê e 4 após retorno da mãe ao trabalho.

A diretora executiva da FALCONI Consultores de Resultado, Viviane Martins, também acredita que todas as empresas deveriam auxiliar os colaboradores na busca do equilíbrio entre carreira e vida pessoal, independente do gênero. “Eu já vi colegas homens chorarem em cima do computador ao verem a foto dos filhos, porque estavam fora de casa já há algum tempo”, afirma Viviane.

A maior parte das empresas brasileiras que adotaram a licença-paternidade fornecem entre 15 e 20 dias de afastamento aos pais.

Os cuidados com a maternidade

Segundo o estudo da FGV, quanto mais baixa a escolaridade da mulher, maiores as chances dela sair do mercado de trabalho nos primeiros anos dos filhos. Isso acontece porque mães mais qualificadas costumam ter salários maiores e conseguem delegar os cuidados das crianças. De acordo com o IBGE, 32,7% das brasileiras com idade entre 16 e 29 anos não estudam e nem trabalham. O principal motivo são os afazeres domésticos, cuidados de filhos e parentes.

Pensando nos primeiros meses da maternidade, o Grupo Boticário criou o Programa de Gestantes, que inclui creche no local de trabalho e uma sala para amamentação. “Ser mãe é um desejo de muitas mulheres e quando este sonho torna-se realidade nada mais justo do que elas terem um tempo para se recuperarem do parto”, afirma Luciana Piva, que é Gerente de Recursos Humanos da empresa.

Pesquisas anuais do Grupo Boticário mostram que, após a adoção desse programa – e de outras medidas de apoio tanto à maternidade quanto à paternidade -, a produtividade da empresa só tem crescido. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), se o número de mulheres no mercado de trabalho subisse 55%, o PIB brasileiro cresceria 0,8% a mais ao ano.

Para Luciana Piva, os movimentos pelos direitos das mulheres estão ganhando mais força pelo mundo e as empresas têm papel fundamental como agentes facilitadores desse processo. “Avançamos para uma sociedade mais igualitária, em que as mulheres tenham direito de escolha não só sobre suas carreiras, mas também sobre suas vidas”, conclui.

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