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domingo, 31 de dezembro de 2017

Depois de Ford e Microsoft, Vice é acusada de conivência com assédio

A empresa de mídia Vice, conhecida pelo jornalismo provocador, retratando temas polêmicos como sexo e drogas, está sendo acusada de ser conivente com um ambiente hostil a mulheres.

Investigação feita pelo jornal americano "The New York Times" identificou dezenas de relatos de casos de assédio sexual feitos por atuais e ex-funcionárias da empresa.

A reportagem, publicada no dia 23 de dezembro, se soma a outras investigações recentes que apontaram conivência com assédio na Ford e na Microsoft nas últimas semanas.

A Vice, contudo, se diferencia das situações encontradas em outras companhias porque seu quadro é formado por funcionários entre 20 e 40 anos de idade -pessoas que entraram no mercado quando assédio sexual já era reconhecido como crime pela lei, diferentemente de gerações mais velhas, que viveram um período em que esse tipo de conduta era tolerado.

"A misoginia pode parecer diferente do que você imaginava ser nos anos 1950, mas ainda estava lá", disse Kayla Ruble, jornalista que trabalhou na Vice entre 2014 e 2016, ao jornal americano.

Muitas das mulheres que trabalharam na Vice e sofreram assédio procuraram a área de recursos humanos para denunciar seus agressores, mas em resposta ouviam que o que tinham passado não caracterizada assédio e que nada podia ser feito.

Em comunicado ao jornal americano, os cofundadores da empresa, Shane Smith e Suroosh Avi, reconheceram que o problema existe e afirmaram estar tomando as medidas necessárias para tornar o ambiente mais "'seguro e inclusivo".

Entre 2014 e 2017, área de RH da empresa foi chefiada por Nancy Ashbrooke, ex-vice-presidente de RH do estúdio Miramax, do produtor Harvey Weinstein, acusado de assédio e estupro por diversas atrizes e assistentes.

Um exemplo é o de Abby Ellis, ex-jornalista da Vice, que diz ter procurado Ashbrooke após Jason Mojica, ex-diretor da Vice News, tentar beijá-la à força e, rejeitado, começado a retaliá-la profissionalmente.

A diretora de RH teria respondido que, pelo fato de a jornalista ser uma mulher atraente, ela teria que lidar com esse tipo de comportamento durante toda sua carreira.

"Enquanto mulheres, nós somos assediadas em todo o lugar e não nos sentimos confortáveis em denunciar porque isso não é considerado uma ofensa denunciável", disse Ellis ao "The New York Times". "Esperam que nós aguentemos isso, é o preço que se paga por fazer negócio", critica a jornalista.

FESTAS

Outros relatos envolvem avanços sexuais não consentidos durante as festas da empresa, uma das marcas registradas da Vice -empresa que nasceu de uma revista canadense marginal e transformou-se em um conglomerado de quase US$ 6 bilhões.

Em entrevista ao "Financial Times" em 2012, Shane Smith, presidente e cofundador da companhia de mídia, disse que nos primórdios da revista ele ia para as festas para "ficar muito bêbado, cheirar cocaína e transar com mulheres no banheiro".

Helen Donahue, ex-funcionária da Vice, afirma que Mojica apalpou seus seios e nádegas durante uma festa de fim de ano da empresa em 2015. Ao relatar o episódio para Ashbrooke, da área de RH, ela ouviu que isso não caracterizada assédio sexual, mas apenas uma "cantada".

"Ela disse que eu deveria esquecer essa história e dar risada disso", disse Donahue ao jornal americano.

Em ao menos quatro casos, a empresa fez acordos de confidencialidade com mulheres que relataram ter sofrido assédio. Um deles, no valor de US$ 135 mil, envolveu o vice-presidente da Vice, Andrew Creighton, acusado pela funcionária de tê-la demitido por ela ter recusado ter relações sexuais com ele.

OUTRO LADO

Em comunicado do "The New York Times", os cofundadores da Vice afirmam que "nós falhamos enquanto empresa em criar um ambiente profissional seguro e inclusivo em que todos, especialmente mulheres, pudessem se sentir respeitados e prosperar".

Eles também reconheceram que uma cultura de "clube do bolinha" também incentivou "comportamento inapropriado que permeou toda a empresa".

A Vice demitiu três funcionários -entre eles, Mojica-, contratou uma nova chefe para a área de recursos humanos e criou um conselho para diversidade e inclusão que inclui entre seus membros a feminista Gloria Steinem, entre outras ações.

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