Páginas

sábado, 28 de outubro de 2017

A trajetória nada tranquila do Uber no Brasil

Reprodução.

A trajetória do Uber nunca foi tranquila por aqui, mas a realidade é que em muitos países o aplicativo acabou na mira das autoridades. Defendido ferrenhamente a princípio por seus usuários e visto como a salvação dos problemas do táxi, o serviço deixou de ser o queridinho do público e acabou estampando de outra forma as manchetes dos jornais e as denúncias.

Quando entrou no Brasil, entre maio (Rio de Janeiro) e junho (São Paulo) de 2014, o aplicativo ganhou rapidamente prestígio. Carros de luxo, motoristas selecionados a dedo e treinados pelo aplicativo para tratar bem o passageiro, água gelada, ar-condicionado e, muitas vezes, carregadores de tomada, além de um preço competitivo que deixava o táxi para trás conquistaram pouco a pouco a clientela.

Do lado dos motoristas, a proposta era sedutora: sem patrão, com horário flexível e ganhos elevados. E parece que, para quem entrou nessa época, foi mesmo uma realidade. Mas, aos poucos, o problema do Uber deixou de ser a briga com os taxistas que estavam perdendo clientela e passou a ser outro.

A abertura legal para que a empresa Uber operasse sem que fosse pelo uso de liminares judiciais e concorresse, de fato, com o táxi – que possui um esquema burocrático muito maior a ser seguido, diga-se de passagem – possibilitou um crescimento acelerado de sua base de motoristas. E esse crescimento acelerado teve, logicamente, efeitos colaterais que a vontade de economizar do público não permitiu que muita gente antevisse.

A receita parece ótima: com mais carros na rua, ninguém fica sem atendimento. Só que o número de passageiros não cresce na mesma proporção que o número de motoristas interessados em complementar a renda ou que precisam recorrer ao serviço de transporte privado como principal fonte de renda. Com mais carros na rua, menos serviço para quem dirige, com menos serviço para quem dirige, menor receita para quem trabalha e, por isso, menor investimento nos veículos, maior carga horária na rua e maior insatisfação. E com menor controle de quem está atrás do volante, a receita para dar problema está formada.

Uma pergunta rápida ao seu círculo mais próximo sobre quem já teve problema com transporte privado revelará um número maior que você imagina. É claro que as denúncias não são exclusivas do Uber, mas por ter uma frota imensa e ser o mais famoso, é onde reside o maior número de casos.

Não ajuda a imagem da empresa quando o público se depara com casos escabrosos, como o episódio revoltante relatado pela escritora Clara Averbuck, que denunciou estupro praticado por um motorista de Uber ao voltar de uma festa e que deu início a uma cadeia de denúncias sequentes a partir de uma hashtag #MeuMotoristaAssediador.

Embora os casos de assédio tenham se acumulado nos últimos tempos, os problemas do aplicativo estão longe de ser apenas esses. O comerciante Gabriel Parras, por exemplo, ainda conta com o Uber por suas tarifas mais acessíveis, mas teve que se acostumar com problemas como ter que pagar pelo cancelamento de corridas de motoristas que mudam a rota e demoram muito mais que o tempo estimado para pegá-lo ou, pior, tarifas que aparecem com um valor em um primeiro momento e, depois, são cobradas mais altas no cartão com retificações do aplicativo. “Eles fazem o que querem”, desabafou.

Com a analista Poliana de Alencar e mais dois amigos aconteceu algo diferente: um trajeto que deveria ser simples, da zona sul de São Paulo à região do ABC saiu o triplo do preço. “Acabamos dormindo no percurso, quando acordamos estávamos na estrada e o motorista disse que havia passado um pedágio e estava perdido. Rodamos 70 km”, contou acrescentando que a viagem saiu R$ 167 e acabou tendo que ser contestada. Poliana teve a diferença de R$ 120 ressarcida, mas recusou recebê-lo em bônus para novas viagens.

Nenhum comentário:

Postar um comentário