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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Conheça Eric Jackson, o investidor-ativista que atormenta a vida dos CEOs americanos

Eric Jackson tem ganhado espaço na mídia americana devido as análises irônicas e ácidas, porém assertivas, que faz sobre empresas de tecnologia do país.

Eric Jackson tem feito barulho no mercado de capitais americano com os relatórios que produz sobre grandes empresas do país. As análises são ricas em detalhes sobre as operações das empresas que avalia, mas também são ácidas e irônicas, ao contrário das geralmente impessoais avaliações feitas por bancos e corretoras. Ele é uma das estrelas do que se convencionou chamar de "investidor-ativista".

O trabalho de Jackson, diretor da SpringOwl Asset Management, consiste em descobrir empresas que não transmitam confiança a seus acionistas e cujas ações estão bastante desvalorizadas - embora não se limite a esse universo. Ele ficou famoso por alfinetar pesos-pesados do mundo corporativo como o principal executivo da Apple, Tim Cook, recomendar a saída de Marissa Mayer, CEO do Yahoo, e, mais recentemente, de Sumner Redstone, agora presidente emérito do conselho da Viacom, dona da Nickeloden, MTV, Comedy Central e Paramount.

Bancos e corretoras produzem diariamente centenas de relatórios e avaliações sobre empresas listadas em bolsa. Por que, então, Jackson faz tanto barulho? Porque, para manter boas relações com as empresas que cobrem, os analistas tradicionais precisam ser mais contidos, avalia o investidor-ativista. Ele, ao contrário, não precisa ser tão polido. "Se você é um analista cobrindo a Viacom e passa a ser muito crítico da gestão da companhia, eles passam a não deixar que você faça perguntas nos balanços da empresa, ignoram seus e-mails de dúvidas", disse ele ao site de VEJA, em entrevista por telefone. "Eles não vão gostar de você, e isso vai dificultar seu trabalho."

Um exemplo da verve de Jackson fica explícito na avaliação que faz do papel de Sumner Redstone na Viacom - que, embora seja hoje presidente emérito do conselho de administração, ainda tem, ao menos formalmente, voz ativa nas decisões da empresa. "Ele é um executivo muito velho e que aparentemente é doente. A gente acredita que sua filha quer que as coisas mudem."

Se Shari Redstone, a filha, assumir mais funções do pai, afirma, "as ações podem subir bastante". Isso porque, diz o analista, "em poucas semanas, ou até mesmo no próximo mês, devem divulgar um relatório médico atestando que ele é mentalmente incapaz de continuar na empresa." Sumner Redstone, hoje com 92 anos, não consegue mais comandar a empresa, não tem planos de sucessão de seu cargo e não tem participado das últimas reuniões e balanços de resultados da companhia, diz Jackson. Em tempo: o fundador da empresa só passou a ser presidente emérito da Viacom depois das publicadas pela SpringOwl Asset Management.

Ponto para o investidor-ativista. Aliás, o mérito da atuação de Jackson e de outros investidores-ativistas não está apenas nos resultados que conseguem - seja na exposição, seja em efetivas mudanças nas empresas. A existência desse tipo de profissional é, por si só, um atestado de maturidade do mercado de capitais do país. Quando o investidor entende que pode ser voz ativa e não uma massa inerte, à mercê das decisões de executivos indiferentes aos anseios de quem assegura recursos para as empresas, todo o mercado ganha.

Algo mais que acidez - As cores fortes das críticas de Jackson não explicam tudo sobre seus métodos. Ele acredita que faz muita diferença o fato de ser ele próprio investidor das companhias que analisa. "Em situações como a do Yahoo e da Viacom, em que fica claro que a empresa precisa de ajuda, você precisa ouvir de um acionista quais mudanças precisam ser feitas", afirma, em explícita autopromoção.

Outra empresa que acabou se tornando alvo de Jackson foi o Yahoo. Segundo ele, a empresa, liderada desde 2012 por Marissa Mayer, tem gastos enormes e que não dão retorno, não apresentou nenhum produto revolucionário, não fez grandes contratações e muito menos tem por hábito ouvir seus funcionários.

Jackson concorda com o jornalista da Business Insider Nicholas Carlson, que, em entrevista a VEJA, no fim de janeiro, disse que a CEO é uma microempreendedora no comando de uma grande empresa. Marissa foi contratada para mudar a cara de passado da empresa, mas não conseguiu ser, na prática, a desenvolvedora de produtos que esperavam dela. "Seus funcionários começaram a se frustrar com sua postura diante da companhia e deles próprios, que sugeriam ideias novas e davam opiniões que ela não aceitava." Muita gente deixou a empresa por causa disso.

Para Jackson, é necessário que a companhia tenha um CEO que entenda de negócios - e Marissa não entende, diz a entrelinha do analista - e que saiba que é necessário ter lucro. "Um líder que encare o desafio de construir um novo produto para o Yahoo e que as pessoas possam usar no futuro", afirma. "Para que o Yahoo tenha um futuro."

Não basta apenas investir, ou apenas ser analista? Para Jackson, quanto mais ativismo, melhor. "Com nosso trabalho, fica difícil de os executivos dessas empresas ignorarem sua repercussão", afirma. "É ótimo para todos quando os acionistas fazem perguntas e reclamam. Quanto mais, melhor."

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